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Outra Noite


Outra Noite



Foste cavaleiro por uma noite

Pastor da minha alma pela madrugada

Rezaste pelo meu coração

E guiaste-me com sorrisos pelas trevas

Foste anjo, foste pecado

Silêncio arquejante sobre o meu peito

Sorte sóbria e amarga

Nesses lábios donos do teu mundo

Foste sonho de verão

Embalaste a minha solidão nesses braços

Oh, cavaleiro!

Deste à vida o prazer de a viver

E neste cântico meu

Pobre corpo vaso de lágrimas secas

Foste meu, só meu

E a inocência lavada em sangue morreu

Foste o princípio da noite

E o final adiado do sol da manhã

Foste a primavera

Cândida paixão no berço da nova era

Regressa logo

Sem o peso da armadura e sem armas

Vulnerável como eu

Neste reino de castelos de lençóis

Onde a loucura

Meu amor, onde a nossa loucura

Se fecha e se esquece

Deixando de fora o resto do mundo

E tu, cavaleiro

És tão somente um nobre homem

E eu, mulher

Não peço nada mais do que isso

Outra noite.


Raquel Martinez Neves

28-Abril-2011


Epifania II


Epifania II


Sente-te possuída pelo aroma quente da poesia

Veneno ácido que corrói o sistema emocional

Numa corrente corrompida de realismo ilusório

Vertido no berço casto de uma mente virgem.

Deixa-te afogar pelas palavras da incompreensão

O grito sufocante de uma revolta indolor e incolor

A incerteza do ar gasto e sujo que respiramos.

A vida é um não à espera de um sim, simples assim

Como afirmar que o céu é azul e as nuvens brancas

Encarnadas as entranhas e o sangue por derramar

Não sei o que mais desejar, senão o fumo da morte

Entranhada na vida como memória esquecida

Porque o tempo a fará constantemente voltar.

Convém sempre saber que se diz o que aqui se lê

E o sentido não importa aos sentidos mas à razão

Somente que não é ela que põe as mãos no mundo

E sente a textura salgada das lágrimas e da dor

E a dura suavidade fina e frágil da fome e da sede.

A história é deixada para que outros a contem

As questões sempre pairam sem resposta no ar

O contentamento é rápido de obter mas efémero

E eternas são as dúvidas tão velhas como a vida

A presença fantasmagórica das miragens do real

Fundidas nas realidades alternativas do ser

Tão privadas e secretas, abstractas e concretas

Como a verdadeira sabedoria sobre todos nós.


Raquel Martinez Neves

22-Fev-11


Alucinação IV


Alucinação IV


Ela correu descalça pelo tapete vermelho

Era veludo mas pareciam chamas

O álcool balouçava-lhe na cabeça

Os olhos viam dois paraísos ambulantes

Abriu os braços e falhou os braços

Rompeu directa entre coisa nenhuma

Caiu e voltou a ficar de pé, cambaleante

Às cegas procurou a garrafa

Doce e amargo como a alma dos homens

Queimou o mais profundo de si

E voltou os olhos delirantes para o céu

Acreditava ser o Sol, o sujo candeeiro

Como belo achava o seu reflexo

E gritou, gritou para a ouvisse lá em cima

Esfregou o rosto negro de melancolia gasta

Essas lágrimas que ele arrancava

Frio e sem piedade do seu olhar manchado

E falou-lhe com agonia e convicção

— Agora vamos fazer um acordo, Deus!

De joelhos tombou no chão, miserável

Lavou as mãos na dor e prostrou-as

Conteve os soluços, tremeu, gemeu

E não obstante o álcool dançando nela,

Volveu-lhe um olhar seguro e lúcido

— Responde-me! Faremos um acordo,

Deus, faremos um acordo!

Falas comigo, e eu farei tudo, Deus,

Farei tudo o que quiseres!

E no negro silêncio, Ele não respondeu

O corpo dela caiu e esperou, deitada

No tapete vermelho como mar de fogo

E o silêncio virou ebúrneo no amanhecer

Deus não lhe respondeu

Agora sabia, com sóbria certeza cruel

Que não podia culpar os homens pela sua arrogância.


Raquel Martinez Neves

14-Jun-10

Justiça



Justiça


Há um arco de corda à saída do Tribunal

Com um estrado de madeira medieval

Escadas de tábuas soltas

E ferrugentos pregos salientes

Há um caminho de pedras ásperas

Manchado de sangue dos pés descalços

E uma árvore para onde se atiram os sapatos

Como enfeites de um pinheiro de Natal

É alta e de tronco escuro quadrangular

Costuma ser guardada por um homem respeitado

A quem todos se dirigem como se fosse Deus

É ele quem dá a autorização

Para que aos ramos sejam lançados os sapatos

Também é ele quem profere as sentenças

Aos outros que pagam a presença do carrasco

Porque à saída do Tribunal há esse caminho

Branco e fatal como a ilusão

É a cegueira do Homem, não a da estátua

Os pratos da balança pesam diferente

Um é sangue e o outro é ouro

E a corda balouça no estrado de madeira

Esperando os inocentes descalços

Que crentes largaram a protecção

Esperança cumprida é esperança morta

O alçapão abre-se e o arco da corda é vermelho

Porque é dessa cor que se pinta a justiça



Raquel Martinez Neves

20-Mai-10

Alucinação III


Alucinação III


Há qualquer coisa de errado aqui. Elevada temperatura.

Não estás febril, ainda não estás febril. Louca.

Revolta-te! Bate o pé. Bate o livro. Bate a porta.

Porque é que não bates com a cabeça? Louca.

Está Sol. Vamos para a praia? Não, aula de História.

É isto que me põe louca. Doente. Dormente? Revoltada.

Lembram-se do cavaleiro? Foi para a reforma. Ficou o plástico.

Vamos construir um foguetão? Dar a volta à Terra.

Será que ainda é azul? Ou negra de cinza e vermelha do sangue.

Queimada... Vamos para a Lua! Construir outra humanidade.

Com água e sal sobreviveremos. E açúcar. Quem precisa de oxigénio?

Levemos então apenas dinheiro. Paguemos por luz todo o ano.

O cavaleiro olhará da Terra e dirá “agora é sempre Lua Cheia!”

Poupem-me, poupem-me. Há séculos que tentamos destruir o mundo.

Venha daí quem tem coragem para carregar no botão!

Agora é tudo automatizado. Leprosos preguiçosos! Cobardes reles!

Comigo não fogem, não. Vou levar um boneco de papel. Dois!

Não estou a ouvir nada, pois não? Que se lixe! Perdão pela linguagem.

Somos realmente mal-educados. Sabes. Sei. Ignoramos. Rebeldia.

Estupidez! Vamos destruir também a língua por preguiça!

O único requisito é ela não nos ter feito mal algum... Confirmadíssimo!

E o cavaleiro que não me trouxe o termómetro. Afinal enganei-me,

Não se reformou, foi despedido! Inútil entre inúteis. Descartável.

Não somos todos assim? Para alguém... Metade do mundo. Mais!

Percebo, percebo. É o calor. A letargia. A visão desfocada, distante.

A mão pouco firme. A voz desinteressante. Palavras que se escapam.

E doença? É Verão na Primavera. É dormir acordado. É tédio.

Não há gargalhadas maléficas na minha garganta. Triste tristeza.

Quero ir ao castelo de cartas. Quero a cama alta. Colcha de penas.

Quero rasgar essas páginas e queimá-las no fogo do esquecimento.

Quero antes lembrar o delírio daquela noite, porta fechada, álcool no sangue.

Besteira imaginária, amnésia! Sonho? Ignorância! Experiência perdida.

Ser aquela e não esta, a inconsciente, ai, a inconsciente! Louca!

Não saber este momento. Apagar o pó da sujidade, limpar a consciência.

Não, não tenho medo. Quero lembrar-me louca, ou inerte, ou em ti.

Nos teus braços, nos teus lábios... Não sei, não sei. Disparates! Disparates!

És outro cavaleiro de plástico. Para a reciclagem! Da próxima sais melhor.

Enfim que quero, entre quereres que não se podem querer? É do Sol, da febre

E talvez da falta desse outro calor. Luxúria sem pecado, pessoal, segredo.

E tu que lês, já sabes, não digas. Eu digo: não está certo! Loucura.

É isto que a clausura faz às pessoas...


Raquel Martinez Neves

28-Abr-10

Alucinação II


Alucinação II


Vem por mim, cavaleiro de armadura de plástico

E espada de preconceito, vestido de futurista

Há um cantinho do mundo que não conquistaste

Ergue castelos de cartas, reveste-os a ouro verde

Convida-me para entrar. O custo? Não mais que a alma

Quero correr o tapete de sangue vermelho

Rodopiar nas nuvens com cheiro a tabaco de menta

E perfume de chocolate negro derretido

Ser tua vil companheira, bruxa má, rainha de paus

Num naipe com símbolos de cifrões, à antiga

Vem por mim, criatura febril de rosto frio

Que sou eu fria de rosto febril, completemo-nos!

Manchar de ganância líquida a água em que te banhas

E dá-las em cristal turvo a beber ao pobre povo

Cresçamos! Em dois milénios e nada se aprende aqui!

Guerrinhas de soldados é brincadeira de criança

Ilusões de estrelas e seres de outra cor é insano

Venham matar os sonhos na sede real do poder!

Todos nascemos para morrer. Pois vivamos!

Cavaleiro, ai, cavaleiro, muito se queixa esta gente

Palavras são desnecessárias. Vençam os números!

Corruptas almas hipócritas que sonham com o céu

Ele é aqui! Ele é aqui! Matem-se! E permaneçam mortos!

Quero ver que salvação vos dá quem vos deixa morrer

À fome e ao frio, à peste e à humanidade, que consome

Suga e esvaía, até serem cadáveres ambulantes

Oh, cavaleiro! Cavaleiro! Mostra-lhes! Tem-me!

Sem pudor, não o escondam! Ao menos honestidade

A verdade aos olhos do mundo será revelada

Se é ela negra, vil e asquerosa, a culpa é nossa

E o proveito também, Ha ha ha ha!

Cavaleiro!

Veste a bata branca e traz-me um termómetro!

O mundo enlouqueceu


Raquel Martinez Neves

21-Abr-10

Alucinação I


Alucinação I


Pára!

As árvores balouçam ao vento

São verde sem esperança

Risos de criança

Agora não! Está frio

Quero chá e cobertor

Uma história de amor?

Sem passarolas e dedos sujos

Conventos que esmagam homens.

Choveu. Ideias de água

Ninguém te ouve, não vale a pena

Criminalidade? É estar aqui

Suspiro... pensa, pensa

Nem penses. Dói. O coração

Na garganta

A vida é uma viagem de barco

Sigo em terra. Enjoada

Chega a voz para falar

Não chega para gritar

Não saber. Ha! Ha!

Não sabes...

O chão não deve ser azul

O céu é azul

Tanto pensas e só disparates!

Sonhos alucinados

Foi como se não tivesses dormido

Não me lembro, não me lembro

Alguém, não sei quem

Azul que também é a caneta

Mas verde é a vontade

Não inexperiente, maçã

Esperançosa, bandeira

E alma não patriota

Fugaz gosto de se ser aqui

Não vás por aí!

Vou, vou sim

Já lá estou...

Não sabes escrever

Olha quem fala!

E o candeeiro de rua não se move

Apagado ser, escuro

Brilha mais a prata

Inútil nos meus dedos

Nos teus braços, nas tuas mãos

Nas gargantas sãs

A minha não

E os óculos não servem para ver

Somos cegos, não sabes

O mar que não vê o céu

Não o encontra, não existe

É tudo igual, tudo azul

Dá-me um lenço

Também quero roubar vontades

Não vejo por dentro

De que cor seria a minha alma?

Ela não se vê. Mas ela vê!

Triste consciência. Coincidência?

Não sabes do que falas

E aquela não sabe que não ouvimos

Eu não oiço. Palavras leva-as o vento

Não o há dentro da sala

Há um espírito louco

Dedos velozes, escrita deficiente

Ideias inacabadas, falhadas...

E tentativa de poema sem fim

O que queres de mim?

Ir para casa. Chá de mel.

Almoço pede o estômago

Que horas são?

Oh, cala-te!

O céu está cinzento

Talvez o veja o mar

Não podemos pintar tudo azul

Que cor é essa, afinal?

A cor detrás das nuvens

E qual a cor das nuvens?

Não interrompas

Não leias. Chega para lá!

Deixa a louca escrever

Já vamos no contrario das linhas

De cabeça para baixo

Aqui não há força da gravidade

Grave é estar aqui

E perder o propósito do aqui

Ouvir? Não me contes histórias

Não reais, por favor

Fala lá para quem te ouve

Eu oiço outra voz

Que também não se cala

Acordou assim, impaciente

Sem sentido, desvairada

Entrou-me vento na cabeça

A água que molhou os cabelos

Não posso ficar doente

Não se pode ser o que já se é

Assim como não se pode

Pintar o céu de azul

Mesmo que hoje não seja azul

Mas cor de nada

Cortando o verde balouçante

Que dirão essas vozes?

De certo não falam de História

De Américas e dinheiros

Mercados onde se vende a alma

A troco de coisa nenhuma

A parta não vale nada

Vale mais o papel

E a tinta azul de uma caneta

Que já a vontade é preta!

E bonito é cantar

Mas aqui já não há voz

Nem risos embalados

São humores encaixotados

Deu-te a luz e fechas os olhos

Também não queres ver

Mas o Sol hoje é História

E História é coisa de Inverno

Solução para a falta de Sol

E para o abraço da Lua

Embaraço dos apaixonados

Aqui só ficcionários

Bonequinhos de papel

Constrói e destrói

Dá à luz e dá à escuridão

Nascem e morrem

Pelo capricho da mão

E fim nunca é boa palavra

Nem sábia decisão

É antes necessidade

E alívio do coração

Que sempre bate mesmo cansado

Que cansaço não importa a ninguém

É desculpa, não é nada

É vida amargurada

E prazeres que ficam por dar

Pálpebras baixas e aflição

Tossidela de anunciação

E roda o mundo vala adentro

Não se perde nada de nós

Que o lixo é todo o mesmo

E o céu continua não azul

Calado e voador

Chegam mãos para o tocar

E ele foge temeroso

Rindo-se desta insanidade

Memoria de eternidade


Raquel Martinez Neves

14-Abr-10