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Gula


Gula

Para preencher o vazio
Do teu corpo agastado
Comes e bebes
E nada te sacia
Tens um buraco no estômago
E a mente em agonia

Não te pesa a consciência
Se te enchem a boca
Entopes-te nesse prazer
De curta duração
E matas a culpa
Na culpa que te consome

Fugaz tentação
Que se esvaía no paladar
Perdes-te pelo doce
Mas és amarga
E salgado é o teu ser
Que não sabe viver

Não tens controlo
Cometes excessos
Nessa efémera euforia
De precária alegria
E só és feliz
Cheio de porcaria

Cobiçoso o teu olhar
Sôfrego o teu ser
Drogado em açúcar
Gordurosa avidez
De quem tudo come
Com insaciável fome

Raquel Neves

Avareza


Avareza

Tu de bolso cheio
Protótipo de humanidade
Quantificada a ouro
És a arrogância
De pensares valer mais
Por possuir mais

Colocas carimbos
De zeros à direita
Desprezas quem tem menos
Invejas quem mais tem
Eterna insatisfação
Louca ambição

Para ti, ávido mesquinho
Um cêntimo é uma fortuna
E este teu tesouro
É preciosos e intocável
E fechas-te para ele
Fechando-o para o mundo

Ninguém pode o que é teu
E queres mais e mais
Limpas as mãos em notas
Olhas-te ao espelho na prata
Mas, pobre sovina,
Nem oferecias lata

A vida para ti é a riqueza
O ar que respiras
Jóias, carros, casas
Império material
Grande demais
Para uma existência mortal

Raquel Neves

Ira


Ira

Fogo que arde
Nas entranhas do teu ser
Queima sobre a pele
Fluiu em terrível sorriso
Agoniante grito
De gargalhada maléfica

Vulcão em erupção
Treme a terra, revolve o mar
Na tua fúria de tornado
Teu corpo impõe-se
Como feroz animal
A que nada pode escapar

Não há nada que pare
Furor de alma assassina
Desejo de sangue
De vingança
De corações quebrados
A teus pés vergados

Para avivar tua cólera
Uma palavra errada
Uma ofensa agravada
Ou simplesmente nada
Está na tua forte natureza
A violência exasperada

Que não te façam frente
Que se calem suas vozes
Ou despertarão a fera
Na sua imponente raiva ardente
Ser de hostilidade fatal
Para o bem e para o mal

Raquel Neves

Vaidade


Vaidade

Espelho, seu melhor amigo
Só tu dizes a verdade
Que os seus olhos querem ver
Por horas e dias
Contemplar-se somente
Deleitar-se eternamente

Parar o tempo
Deixar aquela imagem de beleza
O seu encanto natural
A perdição do seu olhar
Que esquece a alma
Pelo corpo da perfeição

Abençoada nasceu
Como divindade caída do céu
Desperta invejas
Floresce desejos
Com sorrisos exibe-se
Ama-se porque a amam

Sua maior riqueza
É o seu maior pecado
O rosto de Deus lhe deu
O corpo que o Diabo esculpiu
Para mostrá-lo ao mundo
Como doce envenenado

Reflexo que apaixona
O seu olhar deliciado
Porque é belo, belíssimo
Alma que se verga
Perante o que pode ver
Em orgulho pelo ser

Raquel Neves

Preguiça


Preguiça

Alma arrastada
Pelo chão da inércia
Coração cansado
De nada fazer
Suspiro arfante
De não dizer

Por custar demasiado
Cais na moleza
Corpo lânguido
Mente doente
Aversa ao esforço
Contrária ao pensamento

Deitas-te no conforto
Que te adormece os músculos
E então ficas
Na facilidade do nada
Do não mover
Do não viver

O tempo passa por ti
Com indiferença o olhas
Deixas-te estar
Não te queres levantar
Prazer em dormir
Em deixar de sentir

Na tua debilidade conquistada
Perdes a energia da vida
Morres lentamente
Prostrado de languidez
Não te podes mexer
Porque não o queres fazer

Raquel Neves

Luxúria


Luxúria

Desejo de alma insaciável
Sem pudor teu corpo
Grita por satisfação
Vem, vem a mim
Liberta o que te prende
Apaga a tua mente

Rasgar a tua pureza
Teus lábios nos meus
Minhas mãos no teu corpo
Tu em mim
Brincadeira de criança
Eu em ti

Vermelho paixão
Eu quero-te para mim
Sentir-te aqui
Fogo sobre a minha pele
Aquece mas não queima
Dá-me prazer

Entra no meu jogo
O íntimo da vida
Revela-me os teus segredos
Sê a minha outra metade
União de sangue
De alma e corpo

Satisfaz-me o desejo
Tua sensualidade me encanta
Vem entregá-la a mim
A nu me dou a ti
Amor, te quero
Fruto da minha lascívia

Raquel Neves

Inveja


Inveja

Olhar cerrado de ciúme
Congela o deserto
Quebra rocha
Corta a tua alma
Usurpa o que deseja
Deixa o que não quer

Ânsia pelo que tens
Pelo melhor que não dás
Que esse coração aspira
Mas não alcança
Quer com toda a força
E continua a ser teu

Clama injustiça
Sente-se inferior
Pobre ser, pobre vida
Que odeia, que rouba
Que mataria para ter
Tudo o que não é seu

Rasga-se por dentro
Contorcesse em agonia
Desejo proibido
Que te foi permitido
Essência de sangue
Paixão e ambição

Mais e mais
O meu e o teu
Infinito vazio de alma
Que nunca se preenche
Enquanto tu tiveres
O que eu quero

Raquel Neves